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Debate sobre contraceptivos no Brasil

10/11/2015

Diane, Yasmin, Selene, Elani. O que parece ser apenas um amontoado de nomes aleatórios de mulheres é, na verdade, uma pequena amostra de pílulas anticoncepcionais que podem ser compradas livremente em balcões de farmácia do Brasil, sem necessidade de receita médica. Em um País com milhões de usuárias, facilidades assim são responsáveis por transformar este no mais popular método entre as quase duas dezenas de opções disponíveis nas redes pública e privada.

Para se ter uma ideia da preferência pela pílula — tanto por parte dos pacientes quanto dos médicos —, basta analisar os dados do Ministério da Saúde sobre investimentos em  contraceptivos distribuídos gratuitamente no SUS (Sistema Único de Saúde). Enquanto foram adquiridas um milhão de unidades de DIU e 18 milhões de ampolas de anticoncepcional injetável, o órgão comprou mais de 77 milhões de cartelas de pílulas combinadas, aquelas que levam dois hormônios diferentes em sua composição, estrogênio e progestageno.

Trata-se, afinal, de um método contraceptivo prático, relativamente barato e com taxa de eficácia elevada — quando usado corretamente, evita a gravidez indesejada em 99,7% dos casos — o que colabora para que mulheres se sintam seguras em relação à automedicação, sem antes buscar a opinião de um médico.

O problema começa, no entanto, quando algumas das usuárias relatam efeitos colaterais graves com o uso dos anticoncepcionais. Em uma rápida busca na internet, é possível encontrar diversos depoimentos pessoais de pacientes que desenvolveram complicações como trombose e AVC (acidente vascular cerebral) após o uso contínuo da pílula, o que acende a luz de alerta para o uso indiscriminado deste tipo de medicamento.

A página Vítimas de Anticoncepcionais — Unidas a Favor da Vida, por exemplo, foi criada no Facebook há pouco mais de um ano, e já conta com mais de 75 mil membros que se identificam com a causa.

A iniciativa partiu da professora Carla Simone Castro, 42 anos, que, há dois anos, recebeu a prescrição médica da pílula para tratar de miomas, e acabou sofrendo convulsões e desenvolvendo uma trombose e três AVC's, que a obrigaram a passar por duas cirurgias no cérebro e permanecer 120 dias internada no hospital.

A medicina já tem ferramentas para descobrir se uma mulher tem ou não predisposição a problemas circulatórios causados pelo anticoncepcional, mas é raro encontrar médicos que solicitem este tipo de exame antes de receitar a pílula. Atualmente, há, inclusive, uma petição online endereçada à Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) já assinada por mais de 33 mil pessoas pedindo que a avaliação se torne praxe nos consultórios.

Uma das justificativas para a negativa é a de que isto criaria uma falsa sensação de segurança, como explica Luciano Pompei, ginecologista e professor auxiliar da Faculdade de Medicina do ABC.

— Existem trabalhos que mostram que não se deve recomendar esse tipo de pesquisa porque gastaríamos muito recurso financeiro para detectar poucos casos, enquanto existem situações na saúde pública muito mais urgentes. Além disso, se a mulher não tiver uma mutação dessas no exame não significa que ela nunca vai ter. É possível desenvolver tromboses e AVCs mais tarde, mesmo que não apareçam mutações.

Pompei explica que exames específicos só são recomendados caso, na avaliação clínica do histórico de saúde, apareçam evidências de que a paciente tenha riscos acima dos da população em geral. Ele completa que há, na classe médica, uma “batalha” para que os ginecologistas apresentem à mulher todos os métodos anticoncepcionais aos quais ela não tem contraindicação, e a auxiliem nessa escolha.

A ginecologista Ana Maria Capuano concorda que não é comum que os médicos recomendem imediata e unicamente a pílula anticoncepcional, mas, sim, que exponham todas as as opções à paciente.

— Esse risco de trombose de que se está falando muito hoje em dia sempre existiu. Acontece que, às vezes, tem um caso aqui e outro ali e tudo vira um fenômeno muito forte contra o anticoncepcional. Ele é um método muito antigo, ao qual as pessoas estão muito acostumadas, mas ninguém obriga ninguém a tomá-lo.

Existem dois tipos de pílula anticoncepcional disponíveis no mercado: uma que contém apenas progestageno, e outra, a combinada, que traz também em sua composição o estrogênio.

Esta propicia um ciclo menstrual regular, e, segundo Pompei, também traz benefícios à pele porque diminui a quantidade de testosterona livre no sangue. É ela, no entanto, a responsável pelos efeitos colaterais mais temidos, como a trombose venosa profunda.

— A taxa de trombose em mulheres em idade fértil que não utilizem nenhum método hormonal é em torno de quatro pra cada 10 mil ao longo de um ano. Quando pegamos a pílula, podemos dizer que, em média, passaríamos para cerca de oito casos para cada 10 mil. Já na gravidez estes números sobem para 28 a 32 casos.

Algumas das pacientes que optam por abandonar a contracepção com pílulas e trocá-la por outro método não-hormonal também creditam sua decisão à diminuição da libido que o medicamento causaria. Ana Maria explica não é algo que aconteça com todas as mulheres, mas que há, sim, um fundamento médico por trás disso.

— Você tem um hormônio que está inibindo a ovulação, então existem alterações hormonais. A pílula também diminui a lubrificação para dificultar o espermatozoide a nadar. Existe essa parte, sim, mas há também o fator psicológico envolvido.

Entre as opções à pílula existem outros métodos contraceptivos que também se valem de hormônios para impedir a ovulação, como é o caso do anel vaginal, o implante e o adesivo, injeções e o DIU, e também os de barreira, como as camisinhas masculina e feminina e o diafragma, por exemplo, que impedem que os espermatozoides alcancem o óvulo (Confira abaixo a tabela que compara os diferentes métodos de planejamento familiar).

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que regula os medicamentos no Brasil, informa em nota que vem analisando e monitorando os benefícios e riscos do uso das pílulas anticoncepcionais, especialmente no que diz respeito ao perigo de formação de coágulos.

Para a agência, até o momento os benefícios na prevenção da gravidez continuam a superar seus riscos, e a ocorrência de eventos tromboembólicos é “conhecidamente pequena”. O ginecologista Luciano Pompei compartilha da mesma visão.

— Depende muito de cada caso, e é preciso fazer uma avaliação completa. Mas, se a mulher apresentar boa saúde, a pílula oferece muito mais benefícios do que riscos. Além disso, é importante lembrar que qualquer medicamento tem riscos, até mesmo os analgésicos.

 

Fonte: UOL Saúde

Dr. Evilásio Farias da Policlínica Taboão

Em Taboão da Serra - SP